33. Uma Vítima do Boato.

O boato encaminhado a lesar a honra alheia é o mais miserável de todos, e bom seria que sempre terminasse pelo castigo corporal do boateiro, o que infelizmente quase nunca sucede. Neste caso, o que mais acertadamente pode fazer o ofendido, é imitar aquele ministro inglês que no Parlamento, depois de aludir a uma dessas infâmias anônimas, dava um piparote na manga da casaca e dizia: — Ontem era lodo o que me sujava a roupa; agora é poeira; sacode-se e passa-se adiante…

Em épocas agitadas, essas misérias chegam a influir nos acontecimentos. Espalha-se que a vacina obrigatória contém germens de morte: e levanta-se um bairro para resistir ao fatal contágio… Nos dias enlutados que terminaram pela tragédia da Rua da Passagem, eu vi uma mulher, antes diria uma fúria, agitando um trapo vermelho na ponta de um pau de vassoura, em frente da força policial de armas embaladas, e a gritar como possessa: Morrer, sim; vacinar-me, não!… Era uma vítima do boato.

(Carlos de Laet, Crônicas. Rio de Janeiro: Livraria Agir Editora. Fundação Casa de Rui Barbosa, 1983, p. 152).

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33. Uma Vítima do Boato.