119: Um Bandido Literário

Tempos houve, em que a difamação era, com efeito, uma potência. […]

Para se avaliar o que foi esse domínio tenebroso, bastaria tomar na história um quadro, mas o quadro por excelência da malignidade, a vida do Aretino, aquele que, entre todos, por antonomásia se poderia chamar, no sentido grego, Diábolos, o caluniador. O nome desse salteador do espírito comensura, na Renascença, a queda moral da Itália, e dá-nos as proporções gigantescas da soberania do mal, nas épocas em que um bandido literário podia exercer sobre a sociedade apavorada o monopólio da pena.

O inverossímil nas surpresas da fortuna seria incapaz de gerar outro assombro como a carreira desse personagem, filho de cortesã, que, criminoso e foragido aos treze anos, se aluga fâmulo de um mercador, serve a um cardeal, explora a domesticidade do futuro Clemente VII, toma a cogula de capuchinho em Ravena, depois, sob Leão X, tentado pela atração da corte de literatos, histriões e aventureiros, que o rodeia, despe o hábito, corre a Roma, e veste a libré do Vaticano. A catástrofe da Igreja e da Itália revela-o a si mesmo. O saque de Roma, o cativeiro do Papa, a agonia da cristandade ocidental, a profanação da Cidade Eterna rejubilam a alma do lacaio, a quem as calamidades da pátria apenas despertam o apetite de insultar e pedir. Tendo percorrido todos os graus da mendicidade e da libertinagem, elege afinal em Veneza, onde se fala e escreve livremente, o homizio das baixezas da sua vocação e das vitórias do seu cinismo.

Dali o sicário do libelo reqüesta os favores do mundo, estende a mão à Itália inteira, a cristãos e infiéis, ao Grão-Turco, a Clemente VII, a Paulo III, a Júlio III, à púrpura dos cardeais, à coroa dos príncipes, ao balcão dos banqueiros, a Carlos V, a Francisco I, ao condestável de Montmorency, ao rei de Inglaterra, aos artistas, a Solimão, a Barbarroxa. O erotismo dos seus sonetos embriaga os devassos, o veneno dos seus epigramas intimida os hesitantes, a lama dos seus aleives afoga os rebeldes. Já ninguém lhe resiste. Da impunidade do seu trono mendicante no fundo do Adriático ele senhoreia a Itália toda. “Com uma pena e uma folha de papel”, diz ele, “zombo do universo.” Nada em contribuições e honrarias. Carlos V fá-lo cavalgar à sua direita. Júlio III, o pontífice, oscula-o na fronte. Gaba-se de ser “o oráculo da verdade e o secretário do mundo”. É o distribuidor universal da glória e da desonra. O seguro contra esta, a assinatura contra a maledicência compra-se a peso de oiro nas antecâmaras do antigo serviçal de Chigi, agora padroeiro das letras e Mecenas da Renascença.

Tirano da opinião prostituída, imprime no frontispício dos seus livros: “Pedro Aretino, homem livre pela graça de Deus”. Torpe libelista, a si mesmo se aclama o flagelo dos príncipes. Vê-se cavalheiro de S. Pedro e por pouco não chega a príncipe da igreja. Mas tem dela as mais monstruosas apologias. Os púlpitos sublimam-no acima dos santos padres, comparam-no aos maiores discípulos do Cristo, chamam-lhe a coluna do templo, a lâmpada do santuário, o filho de Deus. Especulando indiferentemente com os apetites mais vis e os sentimentos mais altos, vê aos seus pés os escritores, os poetas, os gênios. Ticiano o corteja, Ariosto dá-lhe o título de divino. Só a castidade austera de Miguel Ângelo, o evocador dos profetas e das sibilas, lhe recusa obstinadamente, para as suas galerias, um fragmento de mármore, um escorço, um trapo de papel, sagrado pelo contacto do mestre. Então o crápula, habituado a comerciar indistintamente com a lascívia, a obscenidade e a devoção, o requintado cantor dos Sonnetti lussuriosi, o especialista em romances de lupanar, o estribeiro do imperador luterano nas suas excursões triunfais pela devastada metrópole do catolicismo, acusa de ateísmo e impureza o severo escopro do estatuário e a palheta divina do pintor, exorta o bispo de Roma a cobrir a augusta indecência do Juízo Final ostentada à face dos altares, e a ameaça com a Inquisição, argüindo-o de luteranismo, o grande inspirado.

(Rui Barbosa, “A Difamação.” In: Campanhas Jornalísticas, Vol. 2. Rio de Janeiro: Editora Record, 1998, pp. 249–251).

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