270: O Agitador.

Rir de tudo o que se faz ou se diz é próprio de um idiota; nada dizer, de um estúpido. Rir de uma expressão ou de um ato obcenos é testemunho de uma natureza viciosa. A gargalhada, esse riso imoderado que percorre todo o corpo, e a que os Gregos, por isso, davam o nome de o agitador, não fica bem a nenhuma idade, e ainda menos à infância. Há quem, ao rir, mais pareça relinchar — o que é indecente. Diremos o mesmo daqueles que riem abrindo horrivelmente a boca, enrugando as faces e descobrindo toda a queixada: é o riso de um cão, ou um riso sardônico. O rosto deve exprimir a hilaridade sem sofrer deformações ou manifestar um fundo corrompido. Só os idiotas dizem: rebento de rir! desfaleço de riso! ou, morro de riso! Se sucede algo de tão risível que não seja possível contê-lo, deve-se cobrir o rosto com o lenço ou a mão. Rir quando se está só e sem causa aparente é atribuído, por quem nos vir, à parvoíçe ou a loucura. No entanto isso pode suceder; a educação aconselha, então, a que se diga a razão da nossa hilaridade e no caso de não a podermos fazer, há que inventar qualquer pretexto — para que nenhum dos presentes julgue que é dele que nos ríamos.

(Erasmo de Roterdão, A Civilidade Pueril. Lisboa: Editorial Estampa, 1978, pp. 74–75).

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270: O Agitador.