321: The Real Thing.

A civilization requires the lively circulation of old books. It is all very well to put their contents on the Internet — you need the physical object to curl up with, and as a proof that the past really happened. You need the element of chance and discovery, in rooting through the remains of previous generations. Only a library or a used book store or sale can provide this, in the round — for each contains, in addition to what is currently thought worth reading, a selection of what was once thought so. A computer screen is too small a window, and must be searched along a linear path, which no matter how it zigs and zags, remains a single line of inquiry.

Moreover, to my mind, a book is to a PDF file as sex to pornography. The book is something to hold, not just something to look at. I cannot see an excerpt from an attractive book on some backlit computer projection, without longing for the real thing.

(David Warren, “Old Books,” Essays on Our Times, October 26, 2005).

321: The Real Thing.

320: A Nut.

‘What’s in a name?’ asked Juliet; but she knew too well how dreadfully important her lover’s name was. There is a great deal in a name, real or fictitious. Are you a man? How would your nature have been changed if you had been named Caesar? Or Percy? Or Huckleberry? Are you a woman? Would you not have been miserable if you had been called Salome — and miserable in another way if you had been called Charleen? The two old Irishwomen were right. When they asked what the new baby was called, the proud mother said, ‘Hazel.’ They waited till she had gone, and then one of them said, ‘With all the saints there are in the calendar, she has to go and name the baby after a nut.’

(Gilbert Highet, Talents and Geniuses.  New York: Oxford University Press, 1957, pp. 236–237).

320: A Nut.

319: Marcas Aviltantes.

Tão desprovido de retaguarda histórica está o nosso povo, que o impacto do show business, entre nós, é mais profundo e devastador do que em qualquer outra parte.

Tombando como bombas sobre uma superfície mole e disforme onde nada lhes resiste, as imagens dos os ídolos da TV assumem a dimensão de arquétipos formadores. O peso de 50 milênios de história da civilização recua para uma distância inalcançável, torna-se evanescente e como que irreal, enquanto umas aparências que se agitam na telinha ocupam todo o espaço visível e se impõem como a única realidade.

Querem medir a profundidade desse impacto? Reparem nos nomes das pessoas. A cada nova investida da mídia, uma nova geração de brasileiros se desgarra da história para flutuar, como asteróides errantes, no mundo das identidades imaginárias: chamam-se “Michael” ou “Diane”, quase que invariavelmente grafados Máiquel, ou Máicom, e Daiane. Inútil explicar isto pelo mero senso de macaquice. O fenômeno reflete uma doença mais profunda: a completa vulnerabilidade de um povo desprovido do senso de retaguarda histórica.

Não estou criticando os pais dessas crianças. O que os motiva é um impulso elevado e nobre. Dar nome a uma criança é libertá-la da escravidão natural e protegê-la sob o manto da tradição e da cultura. É subtraí-la da insignificância empírica para elevar sua existência a um sentido universal. O nome de um anjo, Miguel, Gabriel, faz de seu nascimento uma mensagem de Deus. O nome de um santo, João, Pedro, Teresa, Inês, alista-a entre os beneficiários de acontecimentos miraculosos. Os de um animal nobre, de um astro do céu — Leão, Hélio e Eliana — associam-na ao simbolismo espiritual das coisas da natureza. Ao chamar suas crianças de Máiquel e Daiane, o brasileiro pobre expressa o protesto da sua alma contra a sociedade que as condenou a uma existência irrisória e cinzenta, e busca associá-las à corrente dos prestígios que representa a vida realizada, plena, feliz. Mas, em primeiro lugar, Máiquel e Daiane são falsos sentidos universais. Não são nomes de gente. São griffes, copiadas errado de uma língua desconhecida, falada num país distante do qual essas crianças estão ainda mais excluídas do que de uma possível vida feliz na sua terra natal. Para augurar uma vida feliz a essas crianças seria preciso chama-las Miguel e Diana, nomes de forças sutis sem referência geopolítica. A modulação norte-americana exorcisa o arcanjo e a deusa, não deixando em seu lugar senão os rótulos que farão de duas vidas humanas os reflexos anônimos de duas imagens efêmeras.

Há nesse hábito brasileiro um fundo de autocondenação, um evidente sintoma depressivo. Chamar a uma criança Máiquel ou Daiana é declarar que ela só seria feliz se tivesse nascido nos Estados Unidos. Mas ao mesmo tempo seu próprio nome, com grafia errada, prova que não nasceu. Ela está, portanto, condenada ao infortúnio.

Esses nomes não são bons augúrios, como os do arcanjo São Miguel e da deusa Diana: são pragas sinistras lançadas sobre inocentes. Precisamente por carregar nomes grotescos essas crianças terão dificuldade de ascender socialmente no seu próprio país. Em segundo lugar, o personagem cujo nome se copia é, em si mesmo, um nada, um fogo-fátuo, destinado a desaparecer sob a maré de novas imagens da mídia. Aos quarenta anos, quem carregue seu nome será um anacronismo vivo, como o é hoje quem se chame Neil ou por conta de Neil Sedaka ou Pat em homenagem a Pat Boone.

As intenções dos pais terão se desvanecido junto com essas glórias de quinze minutos. Os nomes dessas crianças serão as marcas aviltantes de uma irrecorrível condenação à insignificância.

(Olavo de Carvalho, “A Origem da Burrice Nacional,” Bravo!, 1999/2000).

319: Marcas Aviltantes.

318: I Begin with This.

His self-command and self-importance showed themselves early. He once waited resolutely for many minutes till school-time was ”up,” though his schoolfellows were lashing his legs with switches till they bled, before he would defend himself by a single movement; and then fell upon them with immense success. Like all petted children, he did not like school; his pride was hurt by the unrespecting self-assertion of the republic around him. His most intimate friends were usually women and younger men. He never could endure to be laughed at. Herder’s rather vulgar pun on his name (Göthe), made in college days,

“Thou, the descendant of gods, or of Goths, or of gutters,”

was perhaps a little annoying for the time; but it clearly rankled in his mind; and he mentions it bitterly forty years later, after Herder’s death, in the course of a very kindly criticism, as an instance of the sarcasm which rendered Herder often unamiable; characteristically adding this most true principle of etiquette, “the proper name of a man is not like a cloak, which only hangs about him, and at which one may at any rate be allowed to pull and twitch; but it is a close-fitting garment, which has grown over and over him, like his skin, and which one cannot scrape and flay without injuring him himself.” As a small boy he is said to have walked in an old-fashioned way, in order to distinguish himself from his schoolfellows, and to have told his mother, “I begin with this. Later on in life I shall distinguish myself in far other ways.”

(Richard Holt Hutton, “Characteristics of Goethe,” The National Review, Vol. II, 1856, pp. 252–253).

318: I Begin with This.

317: A Real Writer of Prose.

When one knows how to attract the whole interest of a page on one line, bring one idea into prominence among a hundred others, solely by the choice and position of the terms that express it; when one knows how to hit with a word, one only word, placed in a certain position; when one knows how to move a soul, how to fill it suddenly with joy, or fear, or enthusiasm, or grief, or rage, by putting an adjective under the reader’s eye, then one is really the greatest of artists, a real writer of prose.

(Gustave Flaubert; quoted in Nina H. Kennard, “Gustave Flaubert and George Sand,” The Nineteenth Century, Vol. XX, 1886, p. 702).

317: A Real Writer of Prose.

316: There Was a Time Once.

There was a time once, when, if a man revealed in a conversation that he was familiar with poetic structure in John Keats, it meant something about the man — his temperament, his producing or delighting power. It means now, that he has taken a course in poetics in college, or teaches English in a High School, and is carrying deadly information about with him wherever he goes. It does not mean that he has a spark of the Keats spirit in him, or that he could have endured being in the same room with Keats, or Keats could have endured being in the same room with him, for fifteen minutes.

(Gerald Stanley Lee, “The Dead Level of Intelligence,” The Critic, Vol. XL, 1902, p. 250).

316: There Was a Time Once.