356: A Idéia do Sr. Dickens.

Charles Dickens, numa nota que agora está à minha frente, aludindo a uma análise que fiz, certa vez, do mecanismo do “Barnaby Rudge”, diz: “De passagem, sabe que Godwin escreveu seu “Caleb Williams” de trás para diante? Envolveu primeiramente seu herói numa teia de dificuldades, que formava o segundo volume, e depois, para fazer o primeiro, ficou procurando um modo de explicar o que havia sido feito.”

Não posso pensar que esse seja o modo preciso de proceder de Godwin, e, de fato, o que ele próprio confessa não está completamente de acordo com a idéia do Sr. Dickens. Mas o autor de “Caleb Williams” era muito bom artista para deixar de perceber a vantagem procedente de um processo, pelo menos um tanto semelhante. Nada é mais claro do que deverem todas as intrigas, dignas desse nome, ser elaboradas em relação ao epílogo, antes que se tente qualquer coisa com a pena. Só tendo o epílogo, constantemente em vista, poderemos dar a um enredo seu aspecto indispensável de consequência, ou causalidade, fazendo com que os incidentes e, especialmente, o tom da obra tendam para o desenvolvimento de sua intenção.

(Edgar Allan Poe, “A Filosofia da Composição.” In: Poesia e Prosa. Rio de Janeiro: Editora Globo, 1960, p. 501).

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