400: Amor por Livros.

A leitura de Crime e Castigo me trouxe a convicção melancólica de estarmos vivendo uma depressão histórica. O mundo inteiro está passando por um processo de laminação, de mediocrização, de perseguição de um conforto elementar e não creio ser possível em algum lugar deste mundo de hoje alguém escrever um livro como este e outros de Fiodor Dostoievski. Quem sabe se não seria melhor, mais higiênico, mais decente, calarmo-nos todos durante um milênio? Há livros demais. Creio que mil anos seria pouco para que toda humanidade alfabetizada relesse devagar, quatro ou cinco vezes, os livros merecedores de tal atenção. Por que essa sofreguidão de atos sucessivos, de leituras sucessivas? Por que essa correria? Por que não se recupera a humanidade a cadencia que lhe é própria? As editoras se multiplicam, os autores se improvisam, o crepitar da maquina de escrever substituiu o compassado curso da pena no papel. E o resultado dessa atividade febril é a produção de dez mil livros, cem mil livros que não fariam falta nenhuma ao céu, à terra, às almas dos homens, se acaso não fossem escritos. Há em tudo isto uma estranha contradição: de um lado, a produção gigantesca, a montanha de livros que pediria vidas largamente acampadas no presente; de outro lado, a correria. Se queremos correr por que nos sobrecarregamos de tamanho bagaço?

Eu tenho um antigo e enraizado amor por livros. O que acabei de reler está deitado na mesa com sua lombada marrom e letras douradas. É um livro-livro, um livro que a humanidade levou milhões de anos a fazer. E o que está dentro dele é também uma seqüência de sinais que a humanidade, entre muitos ensaios e malogros, levou milhões de anos a conseguir. E ali está um livro, un libro, a book. Em russo não sei como se diz. E quando digo livro, libro, book estou pensando numa jóia mais rara e mais maravilhosa do que a viagem à Lua. De tudo o que o homem tem feito na Terra, para dar contas de si e dizer ao que veio, creio que o livro é o ponto alto. E por isso mesmo se deduz que a maior degradação cultural do homem se mede em côvados de facilidades editoriais, e em quilômetros cúbicos de papel impresso com coisa nenhuma. Todas as grandes religiões têm na base de seu culto um livro. A nossa religião tem a originalidade de possuir um livro escrito com caracteres humanos, por mãos humanas, mas soprado por Deus. Ele mesmo o ditou.

Estou aqui recordando uma novela do mesmo Fiodor Dostoievski que li há cerca de mil anos. De memória dou o esboço do primeiro capítulo: num vilarejo do interior da Rússia um velho violinista vivia com sua filha ou neta Sonetchka. Um dia chega-lhe a notícia da passagem de um violinista de fama mundial pela cidade mais próxima. O velho siberiano prepara o trenó, agasalha-se, despede-se da neta e parte de manhã. Chega à noite, muito tarde. Vem curvado, abatido. Abre a caixa de seu violino, tira-o, tenta tocar… Recoloca-o na caixa cuidadosamente, sobe ao sótão, traz uma corda, amarra uma ponta na soleira da porta, dá um laço no pescoço e sobe na cadeira. De manhã Sonetchka acorda aos gritos quando vê o avô pendurado e com a língua para fora.

Em termos menos trágicos, Chesterton disse que todos os homens devem fazer por si mesmos certas coisas tais como assoar o próprio nariz, educar os filhos, votar etc., ainda que as façam malfeitas; mas poucos homens devem escrever livros, pintar quadros, modelar esculturas, porque essas coisas só devem ser feitas se esses poucos são capazes de fazê-las sem desonra do planeta que talvez seja o único habitado por seres capazes de tais obras.

(Gustavo Corção, “Relendo Dostoievski,” O Globo, 4 de Março de 1971, p. 2).

Anúncios
400: Amor por Livros.