693: Uma Celebração da Inutilidade.

As gravatas são uma celebração da inutilidade. São uma forma de dizermos: sim, eu sei que isto não passa de um trapo colorido sem nenhum valor utilitário. Mas o mundo que habitamos, quando despido de qualquer coloração humana, também não passa de uma evidência física incapaz de transportar qualquer sentido, ou beleza, ou eternidade. Os quadros que amamos são uma mistela de tintas sobre linho: um amontoado de átomos sem nenhuma expressão humana particular. Mas quando os vemos com um olhar grato e deslumbrado, a evidência da tinta desaparece por trás de deuses ou heróis que tomam literalmente conta do quadro. Um traço de tinta é agora um braço; a folhagem perdida de uma vista; o nevoeiro que vem e tudo cobre. E o que ficam são histórias e mais histórias: de como Vénus nasceu das águas. De como Deus tocou no dedo dos Homens e lhes deu vida e imortalidade. De como a névoa chegou a Veneza e tudo cobriu de tristeza e melancolia. Sim, Veneza: aquele amontoado de casas. De pedras, cimento, tijolo. De becos, canais e ruelas, para usarmos a descrição científica, e cientificamente rigorosa, que horrorizava Proust com a força de uma blasfémia. Mas Veneza é também lugar, e memória.

(João Pereira Coutinho, “Em Defesa da Gravata,” Atlântico, 14 de Junho de 2008).

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693: Uma Celebração da Inutilidade.