414: Douto.

GENETON MORAES NETO: É verdade que o presidente Getúlio Vargas só recebeu você no Palácio do Catete porque pensava que você iria pedir um emprego?

JOEL SILVEIRA: Certamente, porque, como já estava no final do governo, ele não daria entrevista de maneira nenhuma. Getúlio não era de dar entrevista: mandava Lourival Fontes (chefe do Departamento de Imprensa e Propaganda) dar. Nunca deu entrevista, a não ser aquela ao Samuel Wainer. Aliás, Samuel praticamente escreveu aquela entrevista. A verdade é que Getúlio Vargas era intelectualmente preguiçoso. Gostava era de assinar papel, nomear, demitir. Mas me recebeu muito bem, no gabinete presidencial, no Palácio do Catete. Chamou-me de “doutor”. Eu disse: “Presidente, não sou doutor; só fiz o primeiro ano de Direito.” E ele: “Não! O senhor é doutor! Os padres de São Leopoldo, onde estudei, diziam que doutor é quem é douto em alguma coisa. O senhor é douto em jornalismo!” Já estava me corrompendo… Tinha uma conversa amena, agradável. Era limpo. Nunca vi um sujeito tão limpo em minha vida. A camisa, branca, era imaculada. Aliás, ele estava todo de branco, bem penteado, bem barbeado.

GENETON MORAES NETO: Por que é que você prestou atenção nas mãos do presidente?

JOEL SILVEIRA: Notei que as mãos do presidente eram macias, fofas. Getúlio só me cumprimentou na entrada. Terminou me dando as costas na saída. Simplesmente foi embora. Quando eu lhe passei um questionário — e ele viu que o que eu queria era uma entrevista — Getúlio se transfigurou. Aquela cara risonha despareceu. O homem virou uma fera. Jogou o papel assim, na mesa: “O senhor entrega isso ao doutor Lourival”. Em seguida, levantou-se daquela cadeirona pesada — e sumiu.

GENETON MORAES NETO: Você acompanhou do início ao fim os horrores da ditadura do Estado Novo. A imagem de Getúlio, pessoalmente, confirmou ou desmentiu tudo o que você esperava?

JOEL SILVEIRA: Confirmou. Vi que ele tinha empatia, era simpático. Ficava de vez em quando vesguinho quando fumava aquele charuto. Era um malandro, um filho da mãe de uma habilidade política terrível.

GENETON MORAES NETO: Você sentiu, neste contato com Getúlio, que ele sabia ser envolvente?

JOEL SILVEIRA: Getúlio envolveu todo mundo. Não era corrupto: era corruptor! Era pessoalmente um homem honesto — tanto assim que morreu pobre, não deixou fortuna nenhuma, não deixou dinheiro, não deixou propriedade, não deixou nada. Mas corrompia. Era um craque na maneira de corromper. Também era muito cioso do dinheiro público. As pessoas tinham que prestar conta. Eu saí do Palácio de mão abanando, sem a entrevista, mas pelo menos aquele encontro me rendeu uma matéria: conheci Getúlio Vargas.

(“Protagonistas da Imprensa Brasileira,” No. 10, Jornalistas & Cia, 24 de Agosto de 2007).

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414: Douto.

123: Os Dez Princípios da Sociedade Erótica.

1 — Em toda obra pública, o aspecto estético será superior ao acabamento técnico e funcional;

2 — O excesso de esperteza individual é diretamente proporcional à imbecilidade coletiva;

3 — “Povo pobre é povo burro” (Gilberto Amado);

4 — Para os amigos, marmelada; para os inimigos, bordoada; para os indiferentes, lei neles! (Pinheiro Machado e outros);

5 — Deixa como está para ver como fica (Taoísmo político segundo Getúlio Vargas);

6 — Nunca faças hoje aquilo que pode ser feito amanhã, nunca despaches o documento que pode ser despachado por outro;

7 — Na sociedade erótica, a única lei que é obedecida é a lei do menor esfôrço;

8 — “A única lei que falta é a que manda cumprir todas as outras” (Capistrano de Abreu);

9 — “Só os idiotas são objetivos” (Nelson Rodrigues);

10 — Na burocracia — o pessoal expande-se para encher o tempo disponível de ociosidade.

(J.O. de Meira Penna, Psicologia do Subdesenvolvimento. Rio de Janeiro: APEC Editôra, 1972, p. 178).

123: Os Dez Princípios da Sociedade Erótica.