304: Música.

Escrever assemelha-se ao desbaste de pedra, técnica pela qual o escultor chega à forma por subtração de quantidades de matéria, e também se parece com pinceladas contínuas, procedimento pelo qual o pintor chega à forma por adição de quantidades de matéria. Michelangelo chamava ao processo de esculpir “forza di levare”, e ao de pintar, “via di porre”.

A boa escrita passa por etapas de refinamento progressivo, num cinzelar que leva a variadas gradações, tons, timbres, até a forma ir aos poucos vencendo os escolhos da matéria. Neste ínterim, o ouvido do escritor precisa refinar-se como o do escultor que malha o bloco de mármore estando alerta para qualquer mudança de som que possa indicar rachaduras.

A propósito, quem ouve mal comumente escreve mal, pois, sendo silenciosa, a escrita tem proporções aritméticas análogas às das partituras musicais.

Quem é cego para esta música não tem vocação para a escrita, ainda que seja pessoa letrada.

(Sidney Silveira, Facebook, 3 de Fevereiro de 2016).

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304: Música.

157: What Doesn’t Belong There.

Writing is selection. Just to start a piece of writing you have to choose one word and only one from more than a million in the language. Now keep going. What is your next word? Your next sentence, paragraph, section, chapter? Your next ball of fact. You select what goes in and you decide what stays out. […]

Sculptors address the deletion of material in their own analogous way. Michelangelo: “The more the marble wastes, the more the statue grows.” Michelangelo: “Every block of stone has a statue inside it, and it is the task of the sculptor to discover it.” Michelangelo, loosely, as we can imagine him with six tons of Carrara marble, a mallet, a point chisel, a pitching tool, a tooth chisel, a claw chisel, rasps, rifflers, and a bush hammer: “I’m just taking away what doesn’t belong there.”

And inevitably we have come to Ernest Hemingway and the tip of the iceberg — or, how to fashion critical theory from one of the world’s most venerable clichés. “If a writer of prose knows enough about what he is writing about he may omit things that he knows and the reader, if the writer is writing truly enough, will have a feeling of those things as strongly as though the writer had stated them”.

(John McPhee, “Omission,” The New Yorker, September 14, 2015).

157: What Doesn’t Belong There.

119: Um Bandido Literário

Tempos houve, em que a difamação era, com efeito, uma potência. […]

Para se avaliar o que foi esse domínio tenebroso, bastaria tomar na história um quadro, mas o quadro por excelência da malignidade, a vida do Aretino, aquele que, entre todos, por antonomásia se poderia chamar, no sentido grego, Diábolos, o caluniador. O nome desse salteador do espírito comensura, na Renascença, a queda moral da Itália, e dá-nos as proporções gigantescas da soberania do mal, nas épocas em que um bandido literário podia exercer sobre a sociedade apavorada o monopólio da pena.

O inverossímil nas surpresas da fortuna seria incapaz de gerar outro assombro como a carreira desse personagem, filho de cortesã, que, criminoso e foragido aos treze anos, se aluga fâmulo de um mercador, serve a um cardeal, explora a domesticidade do futuro Clemente VII, toma a cogula de capuchinho em Ravena, depois, sob Leão X, tentado pela atração da corte de literatos, histriões e aventureiros, que o rodeia, despe o hábito, corre a Roma, e veste a libré do Vaticano. A catástrofe da Igreja e da Itália revela-o a si mesmo. O saque de Roma, o cativeiro do Papa, a agonia da cristandade ocidental, a profanação da Cidade Eterna rejubilam a alma do lacaio, a quem as calamidades da pátria apenas despertam o apetite de insultar e pedir. Tendo percorrido todos os graus da mendicidade e da libertinagem, elege afinal em Veneza, onde se fala e escreve livremente, o homizio das baixezas da sua vocação e das vitórias do seu cinismo.

Dali o sicário do libelo reqüesta os favores do mundo, estende a mão à Itália inteira, a cristãos e infiéis, ao Grão-Turco, a Clemente VII, a Paulo III, a Júlio III, à púrpura dos cardeais, à coroa dos príncipes, ao balcão dos banqueiros, a Carlos V, a Francisco I, ao condestável de Montmorency, ao rei de Inglaterra, aos artistas, a Solimão, a Barbarroxa. O erotismo dos seus sonetos embriaga os devassos, o veneno dos seus epigramas intimida os hesitantes, a lama dos seus aleives afoga os rebeldes. Já ninguém lhe resiste. Da impunidade do seu trono mendicante no fundo do Adriático ele senhoreia a Itália toda. “Com uma pena e uma folha de papel”, diz ele, “zombo do universo.” Nada em contribuições e honrarias. Carlos V fá-lo cavalgar à sua direita. Júlio III, o pontífice, oscula-o na fronte. Gaba-se de ser “o oráculo da verdade e o secretário do mundo”. É o distribuidor universal da glória e da desonra. O seguro contra esta, a assinatura contra a maledicência compra-se a peso de oiro nas antecâmaras do antigo serviçal de Chigi, agora padroeiro das letras e Mecenas da Renascença.

Tirano da opinião prostituída, imprime no frontispício dos seus livros: “Pedro Aretino, homem livre pela graça de Deus”. Torpe libelista, a si mesmo se aclama o flagelo dos príncipes. Vê-se cavalheiro de S. Pedro e por pouco não chega a príncipe da igreja. Mas tem dela as mais monstruosas apologias. Os púlpitos sublimam-no acima dos santos padres, comparam-no aos maiores discípulos do Cristo, chamam-lhe a coluna do templo, a lâmpada do santuário, o filho de Deus. Especulando indiferentemente com os apetites mais vis e os sentimentos mais altos, vê aos seus pés os escritores, os poetas, os gênios. Ticiano o corteja, Ariosto dá-lhe o título de divino. Só a castidade austera de Miguel Ângelo, o evocador dos profetas e das sibilas, lhe recusa obstinadamente, para as suas galerias, um fragmento de mármore, um escorço, um trapo de papel, sagrado pelo contacto do mestre. Então o crápula, habituado a comerciar indistintamente com a lascívia, a obscenidade e a devoção, o requintado cantor dos Sonnetti lussuriosi, o especialista em romances de lupanar, o estribeiro do imperador luterano nas suas excursões triunfais pela devastada metrópole do catolicismo, acusa de ateísmo e impureza o severo escopro do estatuário e a palheta divina do pintor, exorta o bispo de Roma a cobrir a augusta indecência do Juízo Final ostentada à face dos altares, e a ameaça com a Inquisição, argüindo-o de luteranismo, o grande inspirado.

(Rui Barbosa, “A Difamação.” In: Campanhas Jornalísticas, Vol. 2. Rio de Janeiro: Editora Record, 1998, pp. 249–251).

119: Um Bandido Literário