548: Uma Migalha aos Cachorrinhos.

Quando alguém lhe pede perdão — supondo-se que o faça com sinceridade —, alça você à posição de um juiz, sacerdote ou governante, e assim lhe confere uma honra tão grande, que dar-lhe o perdão solicitado se torna um ato de gratidão.

Quando, ao contrário, você oferece um perdão não solicitado — ou, pior ainda, não desejado —, é você mesmo que se coloca nessa posição superior e, com soberana empáfia, joga uma migalha aos cachorrinhos.

Por isso, se alguém que o ofendeu não lhe pede perdão, você pode perdoá-lo em pensamento e orar para Deus perdoá-lo, mas guarde silêncio e não saia logo posando de magnânimo.

Se, em vez disso, ele lhe pede perdão, não se faça de rogado: corra em oferecer-lhe mais que isso — a sua amizade.

A maioria das pessoas que se dizem cristãs não tem a menor noção dessas coisas.

(Olavo de Carvalho, Facebook, 2 de Abril de 2016).

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548: Uma Migalha aos Cachorrinhos.

521: Processo Global.

Ao longo de toda a história humana, só três constantes gerais foram observadas: a constante de Malthus, isto é, o aumento da população, a constante de Huntington (refiro-me ao geógrafo, Ellsworth Huntington, não ao politólogo, Samuel Huntington), isto é, a tendência à absorção de civilizações menores nas maiores, até à completa mundialização, e a constante de Jouvenel, isto é, a centralização do poder e aumento dos meios de dominação, um processo só aparentemente compensado pela democratização das instituições. A população jamais parou de crescer, os contatos entre civilizações jamais pararam de ser cada vez mais intensos, e o poder jamais cessou de se tornar cada vez mais forte e centralizado à custa da supressão dos poderes intermediários. Estes três processos, inicialmente independentes, começam a se interligar a partir do século XVIII, e as revoluções aceleram o processo global.

(Olavo de Carvalho, Entrevista ao Embaixador Caius Traian DragomirViatsa Romaneasca, Novembro de 1998).

521: Processo Global.

474: A Mensagem do Filósofo.

MINERVA: Num momento como este, como fazer com que o filósofo chegue até uma juventude que não tem sequer perspectivas de sobrevivência econômica?

OLAVO: A mensagem do filósofo aos jovens estudantes, no que diz respeito à dificuldade financeira, é simples, quanto pior ficar a sua condição econômica, mais se apeguem à sua vocação intelectual. Não cedam à pressão de um mundo que quer matar em vocês o espírito à força de atormentá-los com problemas financeiros. O mundo, no sentido bíblico do termo (isto é, a sociedade mundana), só respeita quem o despreza. Na Primeira Guerra Mundial, o físico Werner Heisenberg, então um adolescente, numa cidade reduzida à miséria pelo cerco e pelos bombardeios, se escondia no porão de uma igreja para ler Platão e discutir com seus amigos a metafísica de Malebranche.

Foram os anos decisivos de sua formação: ele poderia tê-los perdido, aguardando melhores dias para estudar. Mas nada, neste mundo, pode vencer a determinação do homem que é fiel à vocação espiritual. Não se intimidem, não desistam. Quanto mais pobres vocês ficarem, mais se dediquem aos estudos. A porcaria reinante não prevalecerá sobre a sinceridade dos seus esforços. Digo isto com a experiência de quem, ao longo de mais de duas décadas de pobreza, com mulher e filhos para sustentar, jamais deixou de estudar um único dia, aproveitando cada momento livre e abdicando de toda sorte de viagens e divertimentos. Nunca esperei que minha situação melhorasse para depois estudar, e garanto: seja teimoso, e um dia o mundo desiste de tentar dominar você pela fome.

(Olavo de Carvalho, Entrevista à Minerva — Informe Filosófico da Universidade Federal de Pernambuco, No. 5, Maio de 1997).

474: A Mensagem do Filósofo.

473: A Maior Força que Existe.

TIAGO DIAS: Qual a principal mensagem de Olavo que precisa ser transmitida para o público?

JOSIAS TEÓFILO: A principal mensagem está no cartaz do filme, e é uma frase que retiramos de uma das suas falas dialogando com Goethe: “A maior força que existe é a personalidade humana”. Nós estamos aqui na Rússia perto de uma das estações do metro que foi construído com trabalho forçado de presos, inclusive presos políticos, no tempo de Stalin. Quantos artistas brilhantes foram mortos por esse regime genocida! Entretanto, a cultura e a espiritualidade (duas faces de uma mesma moeda, segundo Tarkóvski) permaneceram. Porque ninguém pode contra a interioridade criadora do ser humano.

(Josias Teófilo, Entrevista ao site UOL, 26 de Outubro de 2016).

473: A Maior Força que Existe.

454: Verdade Comunitária.

Toda verdade que se espalha por muitos ouvidos logo se torna um lugar-comum, uma fórmula repetida mecanicamente, esvaziada da sua substância intuitiva originária. É ainda uma verdade “material”, mas não “formal”, diriam os escolásticos — isto é, um conteúdo verdadeiro apreendido de maneira falsa.

O conhecimento da verdade, no seu sentido pleno, material e formal ao mesmo tempo, é um privilégio da consciência individual humana. Pode ser repassada de um indivíduo a outros, mas cada um tem de fazer por si mesmo o esforço de apreendê-la. Não existe verdade comunitária.

(Olavo de Carvalho, “A Fonte da Criação,” Diário do Comércio, 24 de Fevereiro de 2015).

454: Verdade Comunitária.

425: A Possibilidade de Contato Pessoal.

WAGNER CARELLI: O que é que forma, e o que atrapalha a formação de uma cultura nacional?

OLAVO DE CARVALHO: Eu acho que o mais importante é a possibilidade de contato pessoal entre as pessoas criadoras, inteligentes e cultas. Eu me perguntei muitas vezes: é preciso um regime democrático? É preciso riqueza? E percebi que surtos criadores aconteceram sob as circunstâncias políticas e econômicas mais variadas, não se consegue traçar por aí uma constante que demonstre que isto ou aquilo favorece ou desfavorece. O florescimento da cultura russa sob o despotismo czarista é fantástico. Não só eles estavam sob uma tirania como não tinham o que comer. Eram uns pés rapados, os únicos que tinham dinheiro no bolso eram Tolstoi e Turgueniev, e este vivia no exterior. Dostoiévski, Soloviev, grande filósofo do século 19, eram duros. Mas o que havia de comum nessas circunstâncias? A possibilidade do contato direto e pessoal, do diálogo entre aquelas pessoas diferentes. Em três grandes momentos da filosofia — a grega, a escolástica e o idealismo alemão — dá para localizar esses encontros pessoais. As duas maiores cabeças pensantes da filosofia escolástica, São Boaventura e São Tomás de Aquino, embora um pertencesse à ordem franciscana e o outro à ordem dominicana, eram amigos pessoais e podiam trocar idéias. A mesma coisa aconteceu na academia platônica e no liceu aristotélico. O idealismo alemão envolvia umas 30 pessoas, mais ou menos, e todas se conheciam, se correspondiam, eram amigos. Esse encontro pessoal era uma coisa básica, e hoje em dia não se tem isso.

(Wagner Carelli, “Abaixo o Imbecil Coletivo! Todo Poder ao Indivíduo!,” República, Ano 1, No. 9, 1997, p. 42).

425: A Possibilidade de Contato Pessoal.