120: A Blow with a Word.

It is an old saying, “A blow with a word strikes deeper than a blow with a sword;” and many men are as much galled with a calumny, a scurrilous and bitter jest, a libel, a pasquil, satire, apologue, epigram, stage-play or the like, as with any misfortune whatsoever. Princes and potentates that are otherwise happy, and have all at command, secure and free, quibus potentia sceleris impunitatem fecit, are grievously vexed with these pasquilling libels and satires; they fear a railing Aretine, more than an enemy in the field, which made most princes of his time (as some relate) “allow him a liberal pension, that he should not tax them in his satires.”

(Robert Burton, The Anatomy of Melancholy. London: Duckworth & Co., 1905, p. 446).

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120: A Blow with a Word.

119: Um Bandido Literário

Tempos houve, em que a difamação era, com efeito, uma potência. […]

Para se avaliar o que foi esse domínio tenebroso, bastaria tomar na história um quadro, mas o quadro por excelência da malignidade, a vida do Aretino, aquele que, entre todos, por antonomásia se poderia chamar, no sentido grego, Diábolos, o caluniador. O nome desse salteador do espírito comensura, na Renascença, a queda moral da Itália, e dá-nos as proporções gigantescas da soberania do mal, nas épocas em que um bandido literário podia exercer sobre a sociedade apavorada o monopólio da pena.

O inverossímil nas surpresas da fortuna seria incapaz de gerar outro assombro como a carreira desse personagem, filho de cortesã, que, criminoso e foragido aos treze anos, se aluga fâmulo de um mercador, serve a um cardeal, explora a domesticidade do futuro Clemente VII, toma a cogula de capuchinho em Ravena, depois, sob Leão X, tentado pela atração da corte de literatos, histriões e aventureiros, que o rodeia, despe o hábito, corre a Roma, e veste a libré do Vaticano. A catástrofe da Igreja e da Itália revela-o a si mesmo. O saque de Roma, o cativeiro do Papa, a agonia da cristandade ocidental, a profanação da Cidade Eterna rejubilam a alma do lacaio, a quem as calamidades da pátria apenas despertam o apetite de insultar e pedir. Tendo percorrido todos os graus da mendicidade e da libertinagem, elege afinal em Veneza, onde se fala e escreve livremente, o homizio das baixezas da sua vocação e das vitórias do seu cinismo.

Dali o sicário do libelo reqüesta os favores do mundo, estende a mão à Itália inteira, a cristãos e infiéis, ao Grão-Turco, a Clemente VII, a Paulo III, a Júlio III, à púrpura dos cardeais, à coroa dos príncipes, ao balcão dos banqueiros, a Carlos V, a Francisco I, ao condestável de Montmorency, ao rei de Inglaterra, aos artistas, a Solimão, a Barbarroxa. O erotismo dos seus sonetos embriaga os devassos, o veneno dos seus epigramas intimida os hesitantes, a lama dos seus aleives afoga os rebeldes. Já ninguém lhe resiste. Da impunidade do seu trono mendicante no fundo do Adriático ele senhoreia a Itália toda. “Com uma pena e uma folha de papel”, diz ele, “zombo do universo.” Nada em contribuições e honrarias. Carlos V fá-lo cavalgar à sua direita. Júlio III, o pontífice, oscula-o na fronte. Gaba-se de ser “o oráculo da verdade e o secretário do mundo”. É o distribuidor universal da glória e da desonra. O seguro contra esta, a assinatura contra a maledicência compra-se a peso de oiro nas antecâmaras do antigo serviçal de Chigi, agora padroeiro das letras e Mecenas da Renascença.

Tirano da opinião prostituída, imprime no frontispício dos seus livros: “Pedro Aretino, homem livre pela graça de Deus”. Torpe libelista, a si mesmo se aclama o flagelo dos príncipes. Vê-se cavalheiro de S. Pedro e por pouco não chega a príncipe da igreja. Mas tem dela as mais monstruosas apologias. Os púlpitos sublimam-no acima dos santos padres, comparam-no aos maiores discípulos do Cristo, chamam-lhe a coluna do templo, a lâmpada do santuário, o filho de Deus. Especulando indiferentemente com os apetites mais vis e os sentimentos mais altos, vê aos seus pés os escritores, os poetas, os gênios. Ticiano o corteja, Ariosto dá-lhe o título de divino. Só a castidade austera de Miguel Ângelo, o evocador dos profetas e das sibilas, lhe recusa obstinadamente, para as suas galerias, um fragmento de mármore, um escorço, um trapo de papel, sagrado pelo contacto do mestre. Então o crápula, habituado a comerciar indistintamente com a lascívia, a obscenidade e a devoção, o requintado cantor dos Sonnetti lussuriosi, o especialista em romances de lupanar, o estribeiro do imperador luterano nas suas excursões triunfais pela devastada metrópole do catolicismo, acusa de ateísmo e impureza o severo escopro do estatuário e a palheta divina do pintor, exorta o bispo de Roma a cobrir a augusta indecência do Juízo Final ostentada à face dos altares, e a ameaça com a Inquisição, argüindo-o de luteranismo, o grande inspirado.

(Rui Barbosa, “A Difamação.” In: Campanhas Jornalísticas, Vol. 2. Rio de Janeiro: Editora Record, 1998, pp. 249–251).

119: Um Bandido Literário